Capítulo 2 – Onde?
No capítulo anterior:
“O
que ele estava prestes a fazer? Ir atrás dela?
Mas
rápido amanheceu. E ela não voltou.
Foi
então, que, o telemóvel tocou.”
Lensai pegou no telemóvel.
– Sim? – Disse assim que o encostou no ouvido. A
sua voz, apesar de manter o seu tom frio e grave, parecia agora ter uma pequena
gota de limão, uma acidez provocada por um desespero sem sentido.
– Bom dia, Senhor. Somos uma empresa de…. – O ruivo
desligou a chamada e atirou o telemóvel para o chão. Passou a mão pelos fios de
cabelo desgrenhados. Sabia que provavelmente estaria a dar parte fraca, ela
devia ter-se perdido nalgum dos milhentos lugares turísticos de Inglaterra.
Porém, vestiu o casaco de couro preto. Esqueceu então que não fumava há
bastantes horas, a nicotina não parecia ser agora o que ele precisava para que
deixasse de se sentir mal, mesmo que sem o saber.
Saiu de casa. Os primeiros raios de Sol eram sempre
os mais incomodativos. Estacou depois de ouvir o chiar do portão.
Para que lado devia ir? E…Porque estava tão
preocupado? Passou a mão grande pela cara. Não era tempo para isso. Tinha de
encontrá-la.
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A morena abriu os olhos, pestanejou algumas vezes,
tentando acostumar-se à luz do dia. Não se lembrava muito do dia anterior. A
última recordação era passar por uma rua onde havia um beco sem saída, a parte
de trás de um pub. Lembrava-se de ter visto algo grande, largo, aproximar-se dela
na escuridão da noite. Parecia-lhe vagamente que depois de se aproximar, o
vulto tornou-se um homem e logo vieram mais dois. Recordava ter-lhe perguntado
como chegar à sua casa. O resto parecia ter sido estilhaçado em mil pedaços.
Como se tivesse sido apagado.
Moveu a cabeça lentamente, soltando um pequeno
gemido ao se tentar levantar, parecia que tinha sido partida em dois. Doía-lhe
tudo.
– Hmmmm… – Um homem corpulento aproximou-se,
lambendo os lábios. Abriu um sorriso malicioso. Dois outros se juntaram a ele. –
Esta é minha.
O som completamente nojento da sua voz assustou-a.
Rya tremeu. O homem fez sinal aos outros dois para
que a agarrassem. Queria gritar, a voz porém não lhe saiu. A garganta tinha
secado de repente.
As mãos do homem desabotoavam a sua gabardine. Ela
tremia cada vez mais. Ele puxou o rosto de boneca dela para cima.
Ele ia tirar-lhe aquela irritante pureza. Da pior
maneira possível.
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Lensai corria, tinha-a descrito para uma vizinha
que lhe dissera a direção que esta tomara. Mas e a seguir? Ela estava perdida,
poderia ter ido para qualquer lado.
Estava frio. Poderia ter ido beber algo quente? Ou
talvez tenha decidido bater com o nariz na porta de um pub. Não tinha muita
certeza se ela realmente entendera o que era um, na noite da chegada dela.
Parou, tinha de pensar. Que cafés havia pela zona?
Começou novamente a correr virando naquela esquina e na outra, passando por
ruas estreitas e sinuosas. Entrava e saía de cafés. A resposta era sempre algo
como: “Nunca a vi na minha vida.” Ou “Ela não esteve aqui.” Ou mesmo um bem
indelicado “Vá-se embora”.
Voltou ao princípio. Pub’s, chegou a hora de os
procurar.
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A camisa dela estava praticamente despida. Ele
tentara beijá-la mas não conseguira. Passou as mãos pela barriga dela. Ela
movimentou-se bruscamente, tentando soltar-se, não queria ser tocada por ele.
Pequenas lágrimas escorriam pela sua face. Cuspiu na cara dele. Nunca tinha
feito isso. Mas arrependeu-se imediatamente, quando ele lhe arrancou a camisa
deixando-a apenas de langerie. Mesmo que gritasse, ninguém a veria, escondida
entre a parede e a enorme caixa de madeira. Pensariam que seriam só alguns amigos
bêbados a divertirem-se com joguinhos estúpidos.
Quando ele começou a desabotoar as jeans dela, o desespero aumentou, podia ser
inútil, mas soltou um grito tão alto e forte que teria acordado todos os da
zona. Ouviram-se passos apressados.
– Vádia! – O homem segurou a cara dela com uma mão,
apertando-a, olhou-a com nojo. – Vais ficar bem caladinha e eu prometo que sou
simpático.
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O ruivo correu até ao último pub da zona. Ouviu um
grito.
Viu três homens aparentemente bêbados naquele beco.
Foi então que por uma milésima de segundo, perto da caixa de madeira no fundo,
junto a eles, lhe pareceu ter visto um fio negro. Um negro que reconheceria em
qualquer lugar. Uma raiva inundou-o, o seu corpo aquecia, devido à adrenalina
que sentia. Serrou as mãos em punho. Prendeu o maxilar, franziu as
sobrancelhas, os seus olhos ficaram obscuros.
– Quem são vocês seus insetos? – A voz dele saiu
tão fria que parecia tê-los congelado. E ao mesmo tempo tão intimidadora como
um rosnado.
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Rya sentiu um pequeno alívio ao ouvir a voz dele.
Porém fechou os olhos automaticamente assim que começou a ouvir estrondos perto
dela. As lágrimas tinham secado, mas tremia ainda, sentia as mãos nojentas do
outro sobre ela. Sentia-se também nojenta. Apesar de ele não ter tido tempo
para chegar mais longe.
Quando parou de ouvir barulhos, arrastou-se e
espreitou.
Havia corpos ensanguentados. Os seus olhos
arregalaram-se. Estariam mortos?
– O que fizeram com ela? – Lensai segurava o homem
pelos colarinhos. Sentia o peso dele todo sobre o braço direito. A sua raiva
era tanta que o levantara do chão. O braço esquerdo estava dobrado, um pouco
atrás da orelha dele, a uma distância razoável. Preparava um gancho de
esquerda.
O homem soltou um gemido de dor e medo, quando, ele
ameaçou movimentar a mão.
– Ela…E-Ela..Eles….Eles tentaram violá-la. A ideia
foi deles.
Lensai olhou então para Rya, escondida, a
espreitar, desviou o olhar fazendo os fios de cabelo rubro taparem o seu rosto.
E desprendeu o braço, o homem caiu ao chão só com o punho dele.
Os passos fortes de Lensai chegaram perto dela.
Evitou o olhá-la. Apenas pegou nela, levando-a no colo até casa.
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Rya tinha-se fechado o dia inteiro no quarto. Não
falou com ele. Lensai não fez questão de se dirigir a ela tão pouco. Já tinha
feito o suficiente. A boa ação do ano. Não voltaria a ajudá-la. A partir
daquele momento, ignorá-la-ia.
Segunda nenhum deles voltou à escola.
Nem terça-feira, nem quarta, nem em nenhum dia
dessa semana.
Lensai embebedava-se e levava todas as noites uma
rapariga diferente para a cama. E os meses passaram nesse ciclo vicioso.
Sempre que Rya passava por ele, Lensai fingia que
não a via, ou então olhava-a frio, muito frio.
A pequena sentia-se cada vez mais perdida. Cada vez
mais aflita. Cada vez mais quebrada.
Ele de igual forma tentava concertar-se. Mas a peça
que precisava, não a havia descoberto ainda, esse jogo que jogavam, não parecia
ter solução. Até que o quebra-cabeças, então, não descoberto pudesse ser feito
de um jeito que nenhum deles desconfiava
ainda.
Prévia do capítulo 3:
“O
tempo passa, as pessoas envelhecem, a felicidade vai, o tempo que passou não
volta, as pessoas não voltam a ser novas, a felicidade, porém, retorna sempre
através de um pequeno fio vermelho do destino, que, impede que duas almas
gémeas cortem o laço de amor que os une eternamente.”